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O consumo de pornografia é algo comum e, de forma geral, as pessoas com pénis consomem-na com maior frequência que as pessoas com vagina. Embora a pornografia possa ser interessante numa ótica de exploração da sexualidade, tanto a sós como em casal, a verdade é que pode ter um impacto negativo no bem-estar das pessoas.

Não existe consenso entre os autores relativamente à forma de caracterizar a adição à pornografia, havendo quem ache que não seja um problema de todo. Outros preferem colocá-lo sob a categoria de compulsão sexual, um termo guarda-chuva que se refere ao foco intensivo em fantasias sexuais, comportamentos e impulsos que a pessoa tem dificuldade em controlar. Em todo o caso, independentemente da categoria onde é ou não colocada, a adição à pornografia não só é algo bastante real como o seu consumo deve ser moderado. Caso contrário, existe o risco de se tornar problemático, isto é, passível de impactar negativamente as outras dimensões da vida da pessoa sendo que o foco da pessoa passa a estar direcionado para o consumo de pornografia, ofuscando quaisquer outros interesses que a mesma possa ter.

Como funciona

O psiquiatra Norman Doidge, no seu livro The Brain that Changes Itself, explica que a libertação contínua de dopamina quando alguém consume pornografia de forma compulsiva e crónica, reforça este comportamento estimulando mudanças na neuroplasticidade do cérebro. Novos mapas para a excitação sexual são construídos a par com uma tolerância que não estava presente. Assim, estes novos mapas não só não têm comparação com os mapas previamente existentes como a própria adição necessita de estímulos cada vez mais explícitos e gráficos para manter os níveis de excitação do indivíduo.

A adição à pornografia toca em algo que nos é muito natural e prazeroso: o impulso para fazer sexo. Assim sendo, é relativamente fácil desenvolver este problema especialmente pela facilidade, atualmente, em aceder a conteúdos pornográficos.

Causas

Não existe um conjunto claro de causas para a adição à pornografia graças à já referida falta de consenso em torno desta ideia. Contudo, um estudo de 2015 refere que a ideia da pessoa se percecionar como viciada no uso de pornografia (mais que o consumo de pornografia per se) parece ser o maior preditor de stress nesta população.

Também podemos notar a presença de outras causas como a existência de problemas de saúde mental, sendo a pornografia usada como forma de coping, existência de problemas nas relações de intimidade, que levam a pessoa a procurar outra forma de preencher e satisfazer os seus desejos sexuais, fatores culturais, como expectativas sociais acerca do sexo podem levar as pessoas a procurar a pornografia, e diferenças na estrutura do cérebro podem tornar certas pessoas mais suscetíveis ao consumo de pornografia.

Sinais

Uma relação pouco saudável com a pornografia demonstra alguns sinais dos quais destaco:

  • Gasto excessivo em material pornográfico, tanto a nível temporal como financeiro – o excessivo é relativo e é baseado no impacto negativo que este comportamento tem na vida da pessoa;
  • Envolvimento em comportamentos sexuais de risco;
  • Uso de pornografia como forma de lidar com emoções desconfortáveis e/ou sintomas de ansiedade;
  • Consumo de pornografia em locais e momentos inapropriados;
  • Sensação de culpa aquando do consumo de pornografia;
  • Redução da satisfação sexual;
  • Esconder hábitos de consumo do(a) parceiro(a).

Efeitos

Para além das possíveis alterações a nível cerebral (anteriormente já referido), os maiores efeitos parecem ser sentidos relacionalmente. Em casal, podem existir mudanças no comportamento sexual ou romântico (a pessoa pode tornar-se mais desconectada, afastada, agressiva ou dominadora), pode haver um aumento da insatisfação sexual, não só por consequência das comparações efetuadas com as performances vistas no material pornográfico (comparação essa que pode ser direcionada para a própria pessoa ou para o outro), mas também pela dificuldade em excitar-se sexualmente com o(a) parceiro(a). Em última instância, estes dois fatores podem ter um impacto negativo na autoestima do(a) parceiro(a) que pode questionar-se a si e à sua capacidade de satisfazer sexualmente o(a) parceiro(a).

Individualmente, a pessoa pode recorrer ao consumo de pornografia como forma de evitar entrar em contacto com emoções desconfortáveis, acabando a distrair-se de forma fácil e rápida. Curiosamente, um consumo desregrado de pornografia pode aumentar a sensação de culpa após o seu visionamento e pode estar associado a uma dificuldade em controlar o impulso e comportamento por mais que existam já consequências graves (perda de emprego, por exemplo).

Tratamento

Embora não exista um tratamento para a adição à pornografia, procurar um(a) psicólogo(a) é fundamental para trabalhar não só este tema como outros assuntos que possam estar na base da procura da pornografia como possível forma de alívio de algo mais profundo que se esteja a passar a nível interno. Em alguns casos, a terapia de casal pode fazer sentido não só para poder haver uma visão partilhada da problemática, como para que possam trabalhar em conjunto as questões levantadas. Em alguns casos, a medicação pode fazer sentido. Mas, a par com as disfunções sexuais, não é algo que tenha que ser vivenciado sozinho(a). Procura ajuda.

Rafaela Rolhas

Psicóloga Clínica
// Este artigo (Parte 2) faz parte da série de artigos sobre Sexologia. //

Imagem Por, Artemisia Gentileschi, “Venus and Cupid (Sleeping Venus)” (Virginia Museum of Fine Arts)

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