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A terapia de Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, também conhecida pelo acrónimo EMDR (Eye Moviment Desensitisation and Reprocessing), é uma abordagem terapêutica integrativa, centrada no cliente, com eficácia comprovada no tratamento de trauma e outros quadros de dor e sofrimento psíquico.

Originalmente descoberta pela Dra. Francine Shapiro, esta terapia foi utilizada no passado como recurso para o tratamento específico da perturbação do stress pós-traumático1Os links exibidos neste artigo foram selecionados pela equipa do Amaral Media., em veteranos de guerra e sobreviventes de abuso sexual. Atualmente, é uma abordagem terapêutica reconhecida e amplamente utilizada como tratamento transversal e integrativo em saúde mental, sendo uma prática clínica recomendada pela Organização Mundial de Saúde e pela American Psychological Association. Em Portugal, a sua utilização é autorizada e validada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e pela Associação EMDR-Portugal. A prática é ministrada exclusivamente por psicólogos e médicos psiquiatras devidamente creditados pela associação EMDR-Portugal.

Objetivo

O objetivo da terapia EMDR é dessensibilizar e reprocessar as origens de funcionamentos traumáticos e outros funcionamentos não adaptativos, que estejam a causar sofrimento na vida presente e a impedir as potencialidades de crescimento e saúde.

A base teórica da terapia parte do pressuposto que os funcionamentos humanos geradores de sofrimento subjetivo e prejuízo funcional, resultam de memórias implícitas e explicitas (conscientes e inconscientes), não integradas de modo adaptativo nas nossas redes de memória.

Durante todo o desenvolvimento humano e ciclo vital, todo e qualquer elemento vivencial é processado e armazenado na nossa memória por associação, formando redes mnésicas ligadas por vias neurais, que vinculam o passado ao presente. Cada memória é construída com material mnésico anteriormente armazenado, originando novas associações e aprendizagens, que são posteriormente utilizadas em situações de vida futuras. Perante vivências traumáticas ou extremamente desafiantes, por vezes, o processamento de informação mnésico fica incompleto, como mecanismo natural e adaptativo de proteção e defesa.

Consequentemente, o armazenamento dessas memórias de modo adaptativo é impedido. Em resultado, podemos assistir à formação de queixas clínicas sem base orgânica e a funcionamentos humanos com disfuncionalidade relevante.

Utilidade

A terapia EMDR utiliza a capacidade de reprocessamento de memórias, que ocorre diariamente e de modo natural durante o sono, especificamente durante a fase REM2Fase REM: última fase do ciclo de sono, caracterizado por movimentos oculares rápidos, sonhos vívidos, movimentos musculares involuntários, atividade cerebral intensa e batimentos cardíacos mais … Ler mais. Nesta fase, cada indivíduo processa eventos quotidianos e reprocessa eventos passados, utilizando movimentos rápidos oculares, que ligam os dois hemisférios cerebrais através de uma estimulação bilateral.

Este fenómeno é então mimetizado em contexto terapêutico, para auxiliar a dessensibilização e reprocessamento de memórias traumáticas não integradas e outras redes mnésicas não adaptativas. Em contexto terapêutico, online ou presencial, cada indivíduo estará acordado e no controlo situacional. Através da estimulação bilateral do cérebro (que pode ser visual, auditiva tátil ou mista) a terapia EMDR visa promover estados de funcionamento mais adaptativos, propondo remeter ou aliviar com sucesso queixas clínicas.

Esta é uma terapia que pode ser utilizada como adjuvante terapêutica em processos clássicos de terapia pela fala ou como tratamento clínico estruturado em abordagens corpo-mente, não sendo conhecidos efeitos secundários da sua aplicação e utilização.

Aplicabilidade

A aplicabilidade do modelo deve ser devidamente avaliada previamente à sua utilização por um profissional de saúde qualificado, em função do estado de saúde e características funcionais de cada sujeito. Algumas terapêuticas medicamentosas não são compatíveis com a utilização da terapia EMDR e, conforme avaliação do caso, são utilizados protocolos de aplicação EMDR específicos.

O EMDR emprega um modelo estruturado de tratamento em oito fases, permitindo focalizar toda uma gama de queixas clínicas funcionais. Tal significa que, queixas organicamente baseadas, como e.g no caso de alterações funcionais por lesão cerebral resultante de traumatismo craniano, o EMDR não será o tratamento recomendado.

O tempo necessário para concluir o tratamento EMDR dependerá do histórico do cliente e respetivo funcionamento. O tratamento completo de um único alvo de trauma EMDR envolve a aplicação de um protocolo base para aliviar ou remeter os sintomas. Já o tratamento para trauma complexo e múltiplos alvos, pode envolver a aplicação sucessiva de um protocolo base, bem como a utilização de outros protocolos específicos para abordar o quadro clínico completo. Os protocolos atuam em três linhas temporais: passado, presente e futuro e respeitam o reprocessamento espontâneo individual – as resoluções e entendimentos adaptativos surgem da própria pessoa.

Em suma, a atuação chave do EMDR é auxiliar o reprocessamento de redes mnésicas que estejam a sustentar funcionamentos traumáticos, bem como outros funcionamentos não adaptativos e sintomáticos no presente.

Alguns exemplos da aplicabilidade da terapia EMDR: ansiedade, medos, fobias e perturbação de pânico; Compulsões, dependência e adições; Lutos, perdas e depressão; Gestão da dor crónica; trauma, trauma complexo e perturbação do stress pós-traumático; Sono; instalação de recursos positivos; desenvolvimento e aperfeiçoamento do desempenho.

Catarina da Costa

Psicóloga e Terapeuta EMDR. Autora do artigo “Psicopatologia do Adulto

Imagem Por, René Magritte, “The False Mirror” (MoMA)

Notas de rodapé

Notas de rodapé
1 Os links exibidos neste artigo foram selecionados pela equipa do Amaral Media.
2 Fase REM: última fase do ciclo de sono, caracterizado por movimentos oculares rápidos, sonhos vívidos, movimentos musculares involuntários, atividade cerebral intensa e batimentos cardíacos mais acelerados. Fase 4 do sono reparador, de relaxamento muscular. Importante para o reprocessamento mnésico e processos de conhecimento e aprendizagem.

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